Uma defensora dos Direitos Humanos. Essa talvez seja a melhor forma para definir a trajetória de vida e profissional da jornalista Priscila Siqueira, 77 anos. Formada em jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro, Priscila, que nasceu em Ponta Grossa, no Paraná, já atuou nas agências Folha e Estado, trabalhando em diferentes veículos de comunicação dos grupos, entre eles o extinto Jornal da Tarde. Casada com o ex-prefeito de São Sebastião, João Siqueira, mora atualmente no Pontal da Cruz e segue lutando pela causa em que acredita. “Sem Justiça não existe amor, não existe qualidade de vida”, diz ela.

Autora de quatro livros publicados, envolvida com a organização de outros muitos livros, como ela mesmo diz, com o passar do tempo passou a ter o enfoque na questão de gênero, ou seja, na violência contra a mulher. Tanto que em uma de suas obras, o livro “Tráfico de Mulheres: Oferta, Demanda e Impunidade”, lançado em 2004, aborda o assunto com foco direcionado aos maus-tratos à mulher. “76% das pessoas traficadas são mulheres; 98% dos consumidores são homens”, revela. De forma mais ampla, também abordou o tema no livro “Tráfico de Pessoas: Quanto vale o ser humano na balança comercial do lucro?”, em parceria com a professora Maria Quinteiro, pesquisadora do Grupo de Estudos Gênero, Mulheres e Temas Transacionais (Gemtra), da USP (Universidade de São Paulo). “É um livro fruto de um trabalho de anos. Eu, particularmente, tenho outras obras publicadas sobre o tema. Mas, dessa vez, escrevemos um livro que abrange não só o tráfico humano para a exploração sexual comercial, mas todas as suas modalidades, isto é: também o trabalho escravo, tráfico de órgãos e tecidos, além de adoção ilegal”.

Para Priscila Siqueira a violência contra a mulher é estrutural. “Nós aceitamos isso como uma coisa normal. O sistema é assim”, pondera, citando o sociólogo francês Pierre Félix Bourdieu. “Ele fala num conceito bem interessante, que comprova essa vertente de violência estrutural, que é a violência simbólica, quando o oprimido aceita a violência do opressor”, diz. “A mulher é tida como emotiva, frágil emocionalmente, incapaz. Mas isso vem mudando. Mas temos muito o que caminhar”, acredita. “Grande parte da população ainda acha que a culpa é da mulher”, completa.

Machismo Introjetado – De acordo com Priscila Siqueira, a sociedade brasileira vive, por décadas, sob um conceito de “machismo introjetado” e “cultura do estupro”. “A própria mulher acha que a culpa é dela”. Casos de grande repercussão na imprensa, que aconteceram recentemente, têm ajudado a mudar essa visão, como, por exemplo, a revelação feita pela apresentadora Xuxa, aos 50 anos, de que sofreu abuso. Ela ainda cita a atriz americana Jane Fonda, “quase uma octogenária”, que também revelou, aos 79 anos, ter sido vítima de violência sexual. “É uma agressão brutal à mulher, que é vista como mercadoria”, ela considera.

Para impedir que esses tipos de casos continuem acontecendo, diz Priscila, a lei Maria da Penha é um dos mecanismos essenciais que precisam de mais rigor em sua implementação. “No Brasil, a cada 7 minutos, uma mulher é agredida em casa. 13 brasileiras morrem por dia. A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada. É uma epidemia”.

Priscila defende o conceito de empoderamento feminino, empoderamento que, segundo ela, também deve se estender aos negros, homossexuais e outros segmentos considerados minorias. “Uma sociedade com relações de igualdade, apesar das diferenças, sem preconceito. Somos todos seres humanos. Somos todos filhos de Deus. Todos nascemos da barriga de uma mulher e vamos todos morrer”, afirma Priscila. “É uma questão cultural, de fundamentação religiosa, que precisa ser mudada”, diz. “Temos que desconstruir essa visão errônea de sociedade”. “Você pode ser o que quiser, e deve ser respeitado”, ela defende.

Genocídio Caiçara – Além dos livros que tratam do tráfico de pessoas, a jornalista, que é mãe de cinco filhos – e avó de oito netos – também é autora do livro “Genocídio dos Caiçaras”, lançado em 1984, pela editora Massao Ohno, um registro da cultura caiçara massacrada pelas grandes empresas, que tiraram do povo do litoral norte paulista seu bem mais precioso: a terra. Priscila vivenciou de perto, durante a ditadura militar, conflitos acerca da posse de terras. Na obra, que reúne uma série de reportagens, ela denuncia maus tratos e agressões a vítimas do progresso econômico. 

(Por: Marcello Veríssimo)

Foto: Marcello Veríssimo

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