“Lenda não tem data, é uma história perdida no tempo”. Assim, a contadora de causos e histórias sobre a vida cotidiana do povo caiçara, Neide da Rocha Palumbo, a dona Neide Palumbo, 74, considerada uma das maiores especialistas no assunto, defende essa representação genuína da cultura caiçara e já avisa: determinados questionamentos sobre as lendas podem não ter respostas; encaixam-se, em certos aspectos, sob uma visão lógica.   

Nascida em 1942, dona Neide disse que, enquanto criança, ouviu inúmeras lendas do pai e do avô. “Antes da televisão a criança sabia das histórias, obtinha conhecimento por meio das lendas”, explica dona Neide, que é mãe de cinco filhos: um homem e quatro mulheres, entre elas a arquiteta Fernanda Palumbo e a jornalista Patrícia Palumbo, profissionais conhecidas e respeitadas em suas áreas.

E são tantas lendas que permeiam a história do município, que dona Neide, em razão do seu vasto conhecimento sobre o tema, é autora de um livro de causos, “São Sebastião nos meus tempos de menina”,  além de ter ajudado a revisar “Mitos e Lendas de São Sebastião”, escrito por Patrícia Viviane. Apesar de muito semelhantes, são dois estilos distintos: lendas são mitos que os povos passam de geração para geração, e causos são fatos marcantes.  

Mas, voltando às lendas, dona Neide revela detalhes das lendas que, geralmente, acontecem em comunidades isoladas como as da Costa Sul do município, por exemplo. “Por lá, na costa sul, dizem que a alma de um padre chamado Domingos perambula”, conta. “Faz muito tempo, quando os padres eram itinerantes, iam de fazenda em fazenda, de praia em praia, celebrando missas, casamentos, batizados, confissões. Por isso, dizem que a alma permanece lá”. “Uma vez estava na praia com um grupo de crianças, à noite, e uma delas gritou: ‘lá vem o padre Domingos’ .  Todos saíram correndo”, diz, aos risos.

Amor e Tragédia no Pontal da Cruz – Bastante conhecida na cidade, a lenda da Pedra da Cruz também está na ponta da língua de dona Neide. “Aninha era uma moça órfã, foi criada por escravos da fazenda do pai dela, cresceu convivendo com os escravos”, ela relata, dando as entonações corretas à história, envolvendo a equipe do portal SãoSebá.com, levando-nos ao cenário da trama. “Todas as tardes ia passear na praia do Pontal e, um dia, acabou encontrando um rapaz, um pescador.  Começaram a conversar.  Apaixonaram-se”, conta.

Só que, neste tempo, continua Dona Neide, a fazenda recebia muitos hóspedes do Vale do Paraíba, para que se tratassem na praia. “Até que chegou um rapaz muito bonito, bem-vestido, cheiroso, que fez amizade com Aninha”.

Dona Neide conta que, segundo a lenda, a partir desse dia, Aninha nunca mais voltou à praia para ver o rapaz pescador que conheceu. “Ela [Aninha] e o rapaz visitante se apaixonaram”. “O pescador vinha e não a via na areia”, revela.  “Aninha passou a conversar com o rapaz bonitão, dia a dia”, completa a contadora de histórias. “Até que um dia o pescador resolveu ir à fazenda levar peixes para encontrar Aninha”.

Foi aí que, ainda segundo a lenda, o jovem pescador viu Aninha e seu novo pretendente conversando. Em choque ao ver a cena, ficou calado observando tudo, de longe, sem que Aninha percebesse sua presença. “Ele voltou para o mar, subiu na canoa e seguiu remando e, surpreso, não conseguiu impedir que a canoa virasse no Canal”, conta Neide Palumbo. Sem conseguir nadar, afogou-se; o corpo foi parar na pedra da praia do Pontal Cruz, justamente quando Aninha foi à praia e se deparou com o cadáver do antigo namorado. “Aninha perdeu o tino, abilolou”, continua Neide, acrescentando que, pouco tempo depois, ela morreu. “Aí nasceram dois pés de abricó na pedra, e alguém colocou no local a cruz que permanece até hoje, representando a história de amor e tragédia que aconteceram ali”.

O Dia em que São Sebastião saiu da igreja e salvou a cidade – Dona Neide Palumbo coleciona histórias para contar, e quem dá ouvidos a ela não tem vontade de parar de escutar. Outra lenda curiosa e divertida que conta é sobre o dia em que São Sebastião saiu da igreja para salvar a vila. “Foi no tempo em que moravam apenas 20 famílias na cidade, que ainda era vila”. “As pessoas tinham roça no Morro do Outeiro, que não existe mais, atrás de onde hoje é a Petrobras”, diz Neide. Ela ainda conta que, enquanto os maridos trabalhavam, as mulheres ficavam em casa, e as crianças iam brincar na praia, próximo do mar. Foram elas que, conforme a lenda, viram navios piratas ao longe, aproximando-se da costa. “As crianças correram para avisar as mães. Os homens não estavam na vila”.

Assustados, todos correram para dentro da igreja e começaram a rezar, pedindo proteção para São Sebastião, fervorosamente. “Todos oravam com devoção, de cabeça baixa; quando levantaram o olhar, São Sebastião não estava mais ali [no altar da igreja]”. Neide conta que todos correram para a praia, ainda a tempo de ver São Sebastião, vestido como soldado, montado em um cavalo, à frente de um exército , combatendo os piratas. “Os piratas fugiram para nunca mais voltar”, diz. “Logo depois São Sebastião voltou para a igreja, o exército que o ajudava sumiu, as mulheres voltaram à igreja para agradecer, e a vida seguiu seu rumo”.  

(Por: Marcello Veríssimo)
Foto: Marcello Veríssimo