Já li muito sobre Deus, sobre o caminho que leva a Ele, sobre como alcançá-lo.
​Já li milhares de páginas sobre a fé, sobre a importância ou não das nossas boas obras, sobre a culpa, sobre o arrependimento, sobre a misericórdia, sobre a compaixão.
​Já li volumes e volumes sobre a graça divina, sobre a redenção através de um salvador, sobre a auto-redenção.
​Enchi estantes com estudos sobre a reencarnação, a ressurreição, a dissolução no Nirvana.
​Poderia abarrotar bibliotecas com tratados sobre técnicas de meditação, de busca espiritual, de passos para a iluminação.
​Hoje, sinto que não existe um caminho para Deus, para a Luz, para a Paz. E não é porque – como dizem – a Paz seja o próprio caminho. O motivo é mais simples: a partir do momento em que traçamos um caminho, ele só pode nos levar a um lugar. Deus (ou outro nome que seja, como Luz, Absoluto, Paz) não consiste em um lugar. Numa aproximação grosseira, poderíamos dizer que se trata de uma energia…a energia. Como energia não pode ser confundida com lugar, ao traçarmos um caminho para a Luz, ou este não terá ponto de chegada, ou, no fundo infinito, a chegada – por não ser possível – será no próprio ponto de partida. No primeiro caso, só teremos esforço, sem nenhum resultado; no segundo, se já tínhamos, no começo, o resultado final, por que qualquer esforço?
​Em outras palavras: no máximo, chegaremos a nós mesmos, e só quando substituirmos o esforço pela entrega total. Mas se conseguirmos chegar plenamente a nós mesmos, sentiremos que sempre tivemos o reino de Deus dentro de nós.
​Essa foi a maneira “metida a besta” de dizer que sinto, hoje, cada vez mais, que não podemos buscar Deus. No máximo, podemos deixar que Ele nos encontre. E ele está desesperadamente atrás de nós.
​Quando pedimos perdão a alguém, Deus se alegra por nos encontrar. Quando amamos verdadeiramente alguém, Deus passa a mão na nossa cabeça. Quando enxugamos as lágrimas de alguém que sofre, Deus nos abraça com força.
​Só há uma técnica: estarmos presentes em nós, no aqui e no agora.
​Só há uma oração: amar.
​Só há um livro: o que estamos escrevendo.
​Só há um final: recomeçarmos tudo, sempre, aqui, agora…


Publicado originalmente no extinto diário Imprensa Livre, em junho de 2009.