Paula e o marido, Geraldo, no Carnaval (anos 70)

Alma de artista, coração de mãe, vida plena de uma grande mulher. Essa é Paula Gallani Barros, 85; sua história de vida é intimamente ligada com São Sebastião. Apesar de ter nascido em Cosmópolis, na região de Campinas, interior de São Paulo, foi no nosso município que Dona Paula, como é conhecida, vive feliz até hoje. “Gosto muito daqui. Sempre gostei, gostava antigamente, continuo gostando, mesmo com as mudanças. Temos que aprender a conviver com o progresso”, conta Paula, que reside há aproximadamente 40 anos na mesma casa.

Ela recorda que chegou ao município ao lado do marido, Geraldo Barros, funcionário da Receita Federal, que veio transferido de Santos para trabalhar na cidade. Paula, então com 35 anos, disse que pensava em ficar apenas dois meses. Aconteceu o contrário. “Vim de uma cidade muito tumultuada e aqui [em São Sebastião] nos deparamos com uma vida calma. O sossego era muito grande”. Os filhos nasceram e cresceram desfrutando dessa qualidade de vida.

Mesmo gostando de tranquilidade, Dona Paula sempre foi referência e manteve sua vida ligada ao agito das artes em geral, também sempre dedicada a ajudar o próximo com seu conhecimento. Lúcida, possui uma infinidade de lembranças de suas realizações feitas na cidade. Entre as mais marcantes, o grupo de escoteiros “Ventos do Norte” e as aulas de artesanato para os presos, que ministrava na antiga cadeia. “Não eram presos perigosos. Tinha ladrão de galinha, preso por briga de rua, apenas um que matou a mulher. Eram oito presos, divididos em quatro celas”, lembra. Entre as atividades, Dona Paula conta que os detentos aprendiam a utilizar a máquina de tear e produziam objetos, como tapetes, feitos em taboa.

Simultaneamente, quase como uma espécie de extensão do projeto das aulas na cadeia, Dona Paula conta que realizou um projeto em parceria com Sônia Vivona, que levava conhecimento de artesanato, gastronomia e corte e costura para “toda a Costa Sul; éramos um núcleo de senhoras, que ensinávamos, uma em cada praia, as pessoas do lugarejo que iam até nós para aprender e depois vender na estrada”. O público, basicamente, era de mulheres adultas das praias Paúba, Maresias, Baleia. “Começava no Paúba e ia embora pela Costa Sul. Naquela época, há 40 anos, Boiçucanga era só pedra. Sempre quis fazer isso”, disse ela. “Durou cerca de três anos, depois foi extinto”.

Carnaval – Outra paixão de Dona Paula Gallani é o Carnaval. Precursora da festa na cidade, relembrou que, em 1969, colocou o bloco na rua, que mais tarde viraria a ser a escola de samba Unidos de São Sebastião. “A Rua da Praia era só mato, nosso Carnaval recebia gente de Ilhabela, Caraguatatuba e Ubatuba, que ainda não tinham Carnaval de rua”.

Com orgulho, disse que não dependiam de verba pública para realizar o desfile, e que eles mesmos realizavam festas, bailes, festival de música sertaneja e eventos, como feijoadas pré-carnavalescas, para angariar fundos para a agremiação. “Tínhamos que batalhar pelo dinheiro”, recorda. Foi aí que surgiu uma nova conquista: deu “vida útil” ao antigo clube CRESS (Clube Recreativo Esportivo Sebastianense). “Era um clube dos estudantes, que eles emprestavam para nós podermos realizar eventos e colocar a escola na rua”. Segundo Paula Gallani, o CRESS era um clube que ninguém frequentava. “Os ricaços de São Sebastião frequentavam o Tebar”.

Dona Paula também ficou bastante conhecida no município após ajudar na fundação do Centro de Convivência da Terceira Idade (Polvo), que surgiu na sequência de sua passagem pelo CRESS. Este ano o CCTI Polvo completa 30 anos de fundação.

Num reconhecimento por sua importante atuação no município, ela recebeu, em 16 de março de 1995, título de Cidadã Sebastianense.

“Não posso parar” – Aos 85 anos, Dona Paula continua ativa e lúcida. Ela continua sua produção de quadros, bonecas, entre outros artigos, seja por encomenda ou para venda na Praça do Artesão, na Rua da Praia, onde possui um quiosque de artesanato. “Gosto muito de ir lá [na Rua da Praia]; tenho com quem conversar e ver as pessoas”, conta. “Sem bordar, não fico”, ela completa.

Esperançosa, acredita na melhoria do país, que passa por uma crise econômica e social. Por isso, continua contribuindo como pode para ajudar. “No último Natal, por exemplo, fiz 85 bonecas a mão, uma a uma, para os alunos do projeto da minha filha. Leio nas revistas sobre o país. Mas tenho netos e bisnetos. Acredito em um futuro melhor para a geração deles. Por isso não posso parar”.

(Por Marcello Veríssimo)
Fotografia: acervo da família, cedida pela entrevistada.

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