Dizem que, momentos antes da morte, vemos o filme de nossa vida inteira. Nunca conversei com ninguém que voltou da morte, mas posso garantir que, se esse filme existe, não será ele a última ocorrência antes do fim terreno, mas sim a resposta a esta pergunta: “valeu a pena”? A resposta a essa questão não deveria acontecer só no momento de nossa despedida, mas a cada segundo…
Bebês tomam brinquedos de outros bebês.
Crianças disputam o carinho dado a outras crianças.
Adolescentes lutam para conquistar ele ou ela.
Adultos, com o fim de angariar poder, fama, dinheiro, dão rasteira no próximo (e no distante, também).
Idosos fazem de tudo para manter de pé o orgulho que sempre alimentaram.
Vale a pena tudo isso?
Do espermatozóide em busca do óvulo ao último suspiro de um rosto enrugado, tudo se resume em uma palavra: desejo.
Do desejo de um brinquedo, sempre presente em uma criança, ao desejo de dar a última palavra, teimosia característica dos idosos, tudo se resume em uma estratégia: lutar.
Desejamos isto, desejamos aquilo, desejamos desejar mais. E na busca da satisfação desse desejo, lutamos com o outro, lutamos conosco, lutamos com o mundo.
Vivemos cegos para a Luz, surdos para o pulsar da verdadeira Vida, mudos diante da pergunta que a Eternidade nos faz: vale a pena?
Somos, na verdade, seres completamente loucos, acreditando no valor da satisfação de nossos desejos. Quando, porém, eles são satisfeitos, percebemos o vasto vazio que sempre esteve em nós. E voltamos a desejar e a lutar…
Somos, na verdade, mais loucos, ainda, pois fingimos que acreditamos em algo maior do que este mundo, tenha o nome de Deus, Luz, Vida Eterna. Nosso fingimento dura um culto, uma missa, uma cerimônia, a exibição de um filme, a leitura de um poema. Logo depois voltamos a desejar e a lutar, pisando tudo e todos nessa busca febrilmente insana. E desejamos, e lutamos, e pisamos…
Vale a pena?

(publicado originalmente no jornal “Imprensa Livre”, em agosto de 2009, com o título “Alma Pequena”.)