Tão antigo e tão atual. Entre os prédios mais representativos de São Sebastião, talvez nenhum continue sendo sinônimo da passagem do tempo como o imóvel onde funciona a Casa Esperança, na Rua da Praia, região central da cidade. Já na terceira geração de proprietários da família Fernandes/Vasques, segue hoje sob o comando do casal Nilza e Reinaldo, pais do artista plástico Reinaldo Fernandes, o próximo na “linha de sucessão” para gerir o negócio histórico da família.

É que a Casa Esperança sobrevive e se renova há séculos. Não existem documentos que comprovem a data de construção do antigo casarão; somente se estima que seja de 1788. “Foi construído por escravos. Era do tempo em que os senhores moravam no piso superior [onde atualmente funciona o espaço cultural Adriana Vasques Fernandes], e em baixo faziam de depósito para guardar café, farinha, banana e outros produtos”, explica a matriarca da família, Nilza Vasques Fernandes, 70, que é mulher do comerciante Reinaldo Fernandes, 73, filho do também comerciante Izidro Fernandes, já falecido. Dona Nilza concedeu entrevista ao portal SãoSebá.com no lugar do esposo, o qual, segundo ela, é envergonhado.  Disse que não se lembra da data da morte do sogro.

Apesar disso, conta que, com o tempo, as transformações foram inevitáveis, e o negócio familiar foi aprimorando-se. “No início era um armazém que vendia de tudo: de prego a comida”, diz. “Lembro do cheiro do peixe seco e do fumo de rolo”, completa o filho, Reinaldo Vasques, chamado carinhosamente pela mãe, amigos e familiares de Reinaldinho.

As mudanças ficam claras, conforme se ouve o relato da família e se visualiza o cenário atual da Rua da Praia. De acordo com eles, até a altura de onde hoje funciona a vizinha Rochinha, “muita coisa mudou”, dizem, mas o prédio da Casa Esperança continua ali. “Ao lado já foi o açougue do Carmo Ricota”, conta Reinaldo Fernandes, o pai, em uma rápida intervenção na entrevista, antes de se afastar totalmente.

Mas, apesar das muitas mudanças e da passagem dos séculos, uma coisa não mudou: a arte da família em fazer negócio e habilidade para vendas que, ainda conforme Dona Nilza, vem desde a época do armazém, quando as mercadorias eram vendidas para Santos. “E nós também íamos buscar mercadorias lá [em Santos], como açúcar e arroz”, explica Nilza. “E a viagem era uma aventura, não tinha estrada, existiam pontes de madeira bem precárias, e nós passávamos pela praia, de caminhonete a diesel. Esperávamos a onda voltar para poder passar com o carro”, diz ela, que, além do marido Reinaldo, teve a ajuda do irmão Orlando Vasques, ainda vivo, para executar a façanha de driblar a maré durante a viagem. “Se ela [a onda] voltasse, tínhamos que jogar brita para a caminhonete continuar andando. Era divertido! Foi bom, porque hoje temos boas histórias para contar”, relembra Nilza. “Lembro ainda que tinha muito mato, e ficava com medo dos bichos”.

Repique & viagem no tempo – “Os pescadores vinham da Ilhabela, paravam suas canoas bem aqui na frente da Rua da Praia, antes de ser aterrada, para fazer o rancho, vender peixes e comprar mercadorias para eles levarem. Eu era bem pequena, mas lembro que batiam o remo na canoa e faziam um repique para chamar a população. Como a cidade era pequena, esse som se ouvia ao longe, e vinham todos comprar, pois sabiam que o peixe chegou”, diz Dona Nilza. “Até que aterraram e eles começaram a parar na prainha em frente ao Tebar”.

Conversar com Dona Nilza, sempre alegre, é como viajar no tempo, sem distinção das épocas. De volta à atualidade, percebe-se que a Casa Esperança, apesar de permanecer funcionando no presente e cultivando suas tradições do passado, ainda assim, não deixa de traçar metas para permanecer funcionando no futuro. Segue vendendo tecidos por metro, “mas não temos roupa pronta”, alerta Dona Nilza, que faz questão de ressaltar que vendem ainda artigos de decoração, cama, mesa e banho. 

(Por: Marcello Veríssimo)
(Foto: Marcello Veríssimo)