A união de todas as energias, religiões, pessoas e nacionalidades que resulta em amor. Amor incondicional, livre, que não julga, nem condena ou discrimina. É o sentimento espalhado pelos quatro cantos do prédio da Casa Ecumênica, loja de artigos religiosos e cênicos, na rua São Gonçalo, no centro de São Sebastião. “Não é à toa que nosso símbolo principal, a marca junto ao nome da loja, é um coração”, define Sônia Maria da Silva, 70, a dona da loja, que possui o balcão central em formato de coração. “No final tudo termina no amor, na fraternidade, sem preconceitos. Não importa quem é você e sim suas ações”, diz.

Soninha, como é conhecida pela cidade, define-se como polivalente. Além de comerciante, é atriz, cantora e agitadora cultural. “Canto, pinto, bordo, danço e represento”, diz ela. Antes de chegar em São Sebastião, em 1978, Sônia Maria fez novela na extinta TV Tupi, onde era atriz do primeiro escalão da primeira grande emissora do país. “Junto com Eva Vilma, Cláudio Marzo, Othon Bastos, entre outros barões da dramaturgia”, ela recorda.

De fato, a arte corre nas veias de Soninha e está presente na sua loja, na sua vida, desde muito nova, aos 6 anos. Além de representar, Sônia também canta e possui discos gravados. “Quando encerraram as gravações, a Tupi faliu. Com o dinheiro que recebi, comprei da família Galvão o prédio [onde hoje funciona a Casa Ecumênica]”.

Com mais de 40 anos de funcionamento, a Casa Ecumênica fez e é parte da história cultural de São Sebastião. Tem em seu acervo mais de 1.500 peças, entre fantasias, adereços e figurinos da Tupi. “É o meu mundo da fantasia para a sua fantasia. A única loja deste tipo na região. Atendemos clientes de Caraguatatuba, Ilhabela e Ubatuba”. “E estamos liquidando tudo para reformar a loja”, conta. E o que não falta são produtos para alugar ou comprar, com preços a partir de R$ 5. “Só não vendo as peças que eram do acervo da Tupi”, completa.

Logo na entrada o que se vê, num primeiro momento, pode assustar os desavisados que não conhecem a Casa Ecumênica, mas a alegria de Soninha logo envolve o cliente, que, na maioria das vezes, sai com o sentimento de ser o melhor amigo de infância da comerciante. O hall de entrada é dividido por nichos: Quimbanda, Budista, Católicos, Espiritas, Umbanda e Candomblé. “A ideia era reunir todas as vertentes religiosas. Deus é um só. Deus é para todos, da maneira como cada um compreende”.

Soninha é devota de Deus e do teatro. “Não quero que o teatro em São Sebastião acabe”, diz ela. Por conta disso, em uma parceria e amizade com o diretor de teatro Carlos Palmer, integrou o elenco e cedeu os figurinos para os atores da peça sobre a vida de São Sebastião, que foi encenada na Rua da Praia, no dia 20 de janeiro, durante a festa do Padroeiro. Agora, fará iniciativa parecida, no próximo dia 14, sexta-feira da Paixão, durante o feriado da Páscoa, quando será encenada a Via Sacra, na Praça de Eventos, a partir das 20 h.
Para saber mais sobre a liquidação e aluguel de fantasias para eventos, ligue: 3892-2095.

Seis Salas – Tudo seria amor na trajetória da Casa Ecumênica e na vida de Sônia Maria, não fosse a lei do tombamento histórico que a obrigou a demolir seis salas do piso superior do prédio, há aproximadamente dois anos. “Quando comprei, o prédio tinha dois andares, não era tombado pelo Condephaat [Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico que protege, valoriza e divulga o patrimônio histórico no Estado de São Paulo]; aí, para cumprir a lei, tive que demolir as salas, pois o prédio [da Casa Ecumênica] não poderia ser maior do que a igreja de São Gonçalo, que fica aqui na outra calçada”, explica Soninha, que, mesmo depois de perder uma batalha judicial, não desanimou. Demoliu as salas, mas está pronta para recomeçar. “Lá [em cima, onde ficavam as salas demolidas] tinham as salas das bruxas, dos palhaços, de Jesus, entre outras; agora tenho que realocar todo o material em outros espaços”, conta Soninha.

Novo Amor – Há cerca de 1 ano, Soninha voltou a sorrir para um novo amor em sua vida. Vive um relacionamento com o ator, cantor e compositor português Amado. “Tudo começou quando estive aqui na loja para comprar peças para me apresentar no Glorifica Litoral [tradicional evento gospel] na Rua da Praia. A Valéria, filha da Sônia, me disse que a mãe cantava e nos apresentou”, diz Amado. “Sou um apaixonado por música. Não gosto de rótulos”, diz ele, que, além de CD’s solo, também já gravou o DVD “Brasileira, Português”, junto com a amada.

(Por Marcello Veríssimo)

Foto: Marcello Veríssimo