O que não falta para ele são histórias para contar. O jornalista Ronaldo Kotscho, 67, irmão do também jornalista Ricardo Kotscho, é um dos poucos profissionais da área privilegiados com uma carreira plena. Conquistou prêmios, cobriu assuntos importantes, trabalhou em grandes veículos de imprensa, viajou o mundo, conhece todo o Brasil e, hoje, aproveita sua “aposentadoria” morando em São Sebastião. “O jornalista nunca deixa de estar na ativa, mas agora estou me preparando para escrever meus livros”, diz ele, que é tio da também jornalista Mariana Kotscho, filha de Ricardo, que já foi repórter da Rede Globo e atualmente apresenta o programa “Papo de Mãe”, na TV Cultura. Ronaldo também é pai de jornalista: o filho Diogo Kotscho é presidente de comunicação do time de futebol Orlando City, nos Estados Unidos. “Meu avô era jornalista”, relembra sobre o interesse na profissão despertado pelo avô e que acabou influenciando boa parte da família a seguir essa profissão.  

Começou escrevendo para jornais de bairro. Entre muitos episódios na carreira, Ronaldo recorda que “seu começo” na chamada grande imprensa foi no Estadão, onde trabalhou por aproximadamente 17 anos. “Na época não tinha faculdade, meu irmão já trabalhava lá. Fui convidado para escrever no caderno de esportes. Depois fui para a revista Placar, nos tempos áureos da revista”.

Na publicação fez grandes reportagens, como o caso da Máfia da Loteria Esportiva, que, segundo ele, acabou com a loteria esportiva no país, em denúncia feita no ano de 1982. A reportagem desvendou o esquema que sustentou durante anos uma rede de corrupção que lesava toda a sociedade brasileira. “Tinha no Brasil inteiro, envolvia vários ex-jogadores de futebol e políticos”, diz Kotscho, acrescentando que “pediu um tempo” para o jornalista Juca Kfoury, então editor chefe da revista, para apurar a matéria, que não seria possível fazer de um dia para o outro junto com o repórter Sérgio Martins, que levantou a matéria com Kostcho, responsável também pelas fotos que ilustraram a reportagem, que levou 1 ano para ser concluída denunciando mais de 300 envolvidos entre jogadores, dirigentes e políticos. Ronaldo escreveu durante 16 anos na Placar, antes de ser convidado para escrever na revista Afinal e receber outro convite para ser correspondente da Editora Abril, na Alemanha, na cidade de Spiesen, perto da fronteira com a França. “Um ponto estratégico, de onde pude me locomover pela Europa por dois anos”.

Depois desse período, Kotscho, também conhecido pelos colegas como “Alemão”, voltou a São Paulo e, ainda na editora, passou a trabalhar na revista Guia Rural, que tinha foco em assuntos ligados à atividade agrícola. Na ocasião, Ronaldo atuava como repórter fotográfico. “Era a década de 80, por volta de 1987. Fui com o repórter Luiz Makluf na fazenda do então ministro do trabalho no governo Sarney, Almir Pazianotto, que mantinha relações com o PT, fazer uma pauta sobre gado e as vaquinhas do ministro. Enquanto esperávamos autorização para entrar no local, na portaria, vi um caminhão do ministério do trabalho chegar”, conta Ronaldo. “Vi que estava cheio de esterco para adubar os jardins da fazenda. As vaquinhas da Embrapa são de alta produtividade, serviam pra estudos da entidade e jamais poderiam ser cedidas”, diz. De acordo com Ronaldo, foi neste momento em que percebeu que a notícia estava ali, na sua frente, já que um veículo de órgão público estava sendo usado irregularmente, para fins particulares. O caso ficou conhecido como “EstercoGate”, em alusão ao escândalo americano do caso WaterGate.

Ronaldo explica que, no caso que cobriu, o foco do escândalo “era o esterco levado à fazenda do ministro”, ele relembra, aos risos. “Levamos o material para o editor da Guia Rural, que disse não poder publicar na revista, pois o assunto era caso para a Veja. Levamos na Veja, e o editor também disse que não poderia publicar”.

Foi aí que, para não perder a notícia, Ronaldo ligou para o irmão Ricardo, que na época trabalhava no Jornal do Brasil, que comprou o material no mesmo dia para publicar na capa da edição do dia seguinte. “Derrubou o ministro”, diz ele.

A repercussão foi imediata. Ronaldo diz ainda que, entre as reações marcantes ao trabalho, uma veio da família Civita, dona da Abril. “O Roberto Civita recomprou o material, mesmo não sendo inédito, para publicar na Veja”.

Jornalismo & Facebook & Livros – Ronaldo Kotscho é dos jornalistas que têm uma carreira de sucesso e não cursaram a faculdade de jornalismo. Para ele, hoje em dia, “o jornalismo impresso no Brasil acabou por si mesmo”. Atribui isso ao jogo de interesses, autocensura dos profissionais e falta de humildade, por achar que, saindo da faculdade o jornalista “sabe tudo”. “Nunca esperei pautas, sempre fui atrás, nunca os editores censuraram minhas ideias, por mais loucas que fossem”, diz. “Por mais louca que fosse a pauta, se o editor tivesse 30% de jornalismo, mandava fazer”, completa.
Como exemplo, cita um episódio que aconteceu durante sua passagem pela rede ESPN Brasil, durante viagem a Quito, no Equador, para cobrir um jogo de basquete. Com a equipe de reportagem, viu um grupo de mulheres tocando tambor, manifestando-se contra os Estados Unidos; “na hora”, como ele mesmo diz, junto com outro repórter que o acompanhava, pediu para o cinegrafista fazer imagens do protesto, mesmo sem ter muita noção de como incluiria a cena no momento de editar a reportagem. “O esporte não é assunto isolado, sei que usamos isso [a cena das mulheres em Quito, protestando contra os Estados Unidos] na abertura do programa. Mesmo a rede de TV sendo americana”, comentou. “O jornalista não pode se censurar, tem que fazer”. Kotscho lembrou ainda que, depois, foi chamado por José Trajano, o qual, ao mesmo tempo em que não gostou, por antever retaliações da matriz americana, elogiou a ousadia dos jovens repórteres. “Hoje esse tipo de coisa não acontece mais; é a nova geração de jornalistas, que saem da faculdade pensando que sabem tudo”. “Por incrível que pareça, tem informações de jornalistas graúdos no Facebook mais precisas do que na imprensa”, diz, referindo-se às páginas de “tubarões” do jornalismo, como Alberto Villas e Fernando Morais.
Na época em que trabalhou na imprensa, os jornalistas eram convidados a trabalhar, iam crescendo, e os melhores professores estavam dentro das redações dos jornais. “Hoje em dia, os novos acham que sabem tudo e não têm humildade para aprender. Essa é a diferença. Até hoje eu aprendo. Os novos acabam ficando sem referência”, afirmou. Além da ESPN Brasil, Ronaldo ainda teve passagens pela Band e SBT.
Kotscho diz que, com a rapidez da internet e do mundo pós-moderno, os jornalistas recém-formados deixam de ter uma visão mais ampla do assunto e, muitas vezes, acabam por não fazer o básico da reportagem. “Checar, confirmar, checar novamente e ouvir o outro lado”, diz. “O jornalista tem que ter bagagem para fazer uma reportagem”.
Para reunir suas melhores histórias, Ronaldo prepara um livro que pretende mostrar os bastidores das reportagens que produziu entre 1967 e 2015.
Morar na Praia – Com toda a rotina estressante da reportagem, chegou o momento em que Ronaldo quis sair de São Paulo para morar na praia. Antes de São Sebastião, pensou em Aracaju, Salvador, mas uma de suas filhas acabou comprando imóvel na praia do Guaecá, e Ronaldo começou a frequentar o município em 2005; desde 2008, vive o sonho de morar em frente ao mar.
Brasil – “Nunca vi o Brasil tão ruim assim, desde a época dos militares”. Dessa forma, com dor no coração, Ronaldo sintetiza o atual momento de crise que atravessa o país. “Conheço o Brasil de ponta a ponta, e enquanto o povo continuar mal informado, acreditando no que aparece no Jornal Nacional, como posso dizer que tenho esperança?”, diz ele, acrescentando que as reformas do governo federal também são um atraso para a nação. “O Governo quer mexer na educação, tirar História do currículo escolar, só deixar Matemática e Português. Um país que não tem história não tem passado e não tem futuro”.

(Por Marcello Veríssimo)
Fotos: Acervo Ronaldo Kotscho