“Mahalo Ke Akua”. A expressão havaiana de agradecimento que transcende qualquer forma de entendimento, mas que em tradução simples quer dizer algo como “Graças a Deus”, talvez seja a melhor forma para definir o contato do homem com o mar e a natureza, que se unem em um único ser: o surfista.

Esse contexto adquire formas reais ao conversarmos com o surfista Carlos Alberto Xavier de Andrade Junior, ou simplesmente Carlos Sheriff, 56, santista de nascimento e caiçara sebastianense de coração, que falou ao portal SãoSebá.com, em uma manhã chuvosa de segunda-feira, provando que a água, não importa qual seja, faz parte da sua vida. “Comecei a surfar ainda criança, por volta dos 10 anos”, disse ele, que considera o surfe mais do que um esporte. “É estilo de vida”, completou.

Estilo presente em praticamente toda a família. A mãe de Carlos, Leidenalva Maria dos Santos, a dona Leide, conta que a paixão pelo esporte é um tipo de alicerce da família, e que já rendeu muitas histórias e boas lembranças. “No início, meu marido os levava de caminhonete para o Guaecá”, conta. “Quando não, eles iam de carona ou a pé, andando cerca de 13 quilômetros”.

“Eles”, a que a mãe de Sheriff se refere, são os surfistas “das antigas”, a velha guarda do surfe sebastianense, que hoje podem ser chamados de “tiozões” do esporte. “No começo não tinha ninguém. Ele é o primeiro surfista da cidade”, completou a mãe. Depois, começaram a surgir outros nomes históricos do surfe local, entre eles o Gil [de Barequeçaba] e o Fran, que atualmente mora no bairro Massaguaçu, em Caraguatatuba.  “Passavam em casa e diziam que tinha onda, meu marido fechava a oficina e iam para a praia”. Também estava incluído na turma o irmão de Sheriff, Roberto Andrade, que ganhou o apelido de Jacaré, por “pegar muito jacaré” nas ondas. Roberto casou, desistiu do surfe e hoje mora em Santos. “Meu marido ficava na areia para fazer a comida”, relembra dona Leide.

Carlos explica que, no começo de sua trajetória no esporte, era outra época, e, de lá para cá, muita coisa mudou. “A gente chegava para pegar onda. Quando tu é novo, quer ser campeão”, disse ele. E, embora não se tenha tornado um atleta profissional de competição – Carlos surfa por satisfação, mesmo tendo participado de campeonatos na juventude, por conta, e ainda participe entre os masters – considera que a “tempestade brasileira” formada por surfistas da nova geração, entre eles o sebastianense Gabriel Medina e outros da região, que disputam o mundial da modalidade, impulsionaram o surfe brasileiro a um novo patamar internacional. “Hoje, quando um surfista brasileiro sai da água, os gringos é que babam”. Atualmente, cerca de 10 brasileiros disputam as etapas do circuito mundial na WSL (World Surf League), ao lado de lendas icônicas do surfe, como o americano Kelly Slater, 11 vezes campeão mundial.

49 anos de praia – E Carlos fala com propriedade, quando o assunto é surfe. Durante os 49 anos de praia, aprendeu a encarar qualquer tamanho de onda. “Das pequenas às maiores”, explica ele, que conhece a maioria das praias do nosso litoral, mas que considera a praia do Guaecá “sua casa”. Entre os “picos” preferidos, o Canto do Itaguaré, em Bertioga, quase na divisa com o Litoral Norte e o Quebra Mar, em Santos, que os surfistas consideram a “Malibu” brasileira. “Mesmo com muita sujeira que tem lá [na praia do Quebra Mar], a onda é boa”.

Sheriff também surfou na “gringa”; enquanto trabalhou como embarcado, aproveitou seu tempo de descanso no serviço para surfar na África do Sul, Tailândia, Índia e Dubai. “Todo lugar é ‘casca’, mas um lugar que respeito antes de entrar é Maresias. Quem surfa em Maresias, surfa em qualquer lugar do mundo”, diz o surfista, que sofreu um caldo marcante no chamado Canto do Moreira, que reúne condições ideais para o surfe no fim da praia. “Os prós [surfistas] de Maresias são criaturas à parte”, elogia ele. Por conta disso, diz que sempre “dá um toque” nos mais novos, quando ouve que vão surfar em Maresias. “Tudo depende de como está a ondulação, mas o atleta tem que olhar as correntes marítimas. O fundo do mar é de areia, muda a todo momento”.

Machismo na água, não! – Com o sucesso de Gabriel Medina, é fato que aumentou o interesse da juventude pelo surfe, inclusive por parte das meninas; há, também, uma infinidade de pranchas e equipamentos disponíveis para venda no mercado. Mas para elas marcarem presença na água, ainda um ambiente predominantemente masculino, precisam remar em busca das melhores ondas e da igualdade. “Incentivo as meninas a surfar de longboard, tenho respeito, pois o ‘pico’ [a praia] é universal”, diz Sheriff. “A igualdade é para todos”.

Legado – “Melhor tiozão do que tiozinho”. A frase de Sheriff dá a proporção do legado do surfista para a história deste esporte no município. Uma longa história, de altas ondas. Além de ensinar e ajudar quem pede uma força quando está na água, Carlos Sheriff também é o único shaper em atuação na Vila Amélia, região central de São Sebastião. Com uma oficina nos fundos da sua casa, fabrica pranchas de forma quase artesanal em aproximadamente uma semana. “O shaper é que dá alma ao brinquedo”, diz ele, sobre a “identidade” presente em cada um dos equipamentos.

A diferença, explica Carlos Sheriff, é que na loja as pranchas são produzidas em grande escala. “Se você quer começar a surfar e chega para comprar uma prancha na loja, vão falar que tal modelo é o ideal, e às vezes aquele modelo não se encaixa pra você. O modo de produção e trabalho do shaper é justamente fazer a prancha personalizada, aquela que vai melhorar a performance do atleta dentro da água”.

E a história continua. Carlos transmite o que sabe sobre a arte de fazer pranchas aos amigos que o procuram e possuem interesse nesse mercado, além de já ensinar o filho adolescente Carlos Alberto Xavier de Andrade Neto, 14, nas primeiras braçadas e manobras. É a vida seguindo seu rumo sobre as ondas.  

Para saber mais sobre o trabalho do shaper, ligue (12) 99787562

 

(Por Marcello Veríssimo)
Foto: Marcello Veríssimo